Tuesday, December 12, 2006

O Deus bailarino (Ed René Kivitz)


Quem acredita num mundo onde cada ser e cada relação é singular não consegue se submeter a esquemas, não confia em métodos nem se impressiona com estatísticas. O que acreditamos a respeito de uma coisa determina a maneira como nos relacionamos com ela. Eu, por exemplo, gosto de brincar com cachorros, mas se percebo que um cachorro é bravo, fico longe dele; mas se é brincalhão, chego perto. Assim é também com o mundo. Antigamente, acreditava-se que o mundo era uma estrutura hierarquizada, sempre do mais complexo ou poderoso para o mais simples ou fraco, sendo que Deus ocupava o topo da pirâmide. O imaginário das pessoas era construído a partir das relações entre reis e súditos, senhores e escravos, generais e soldados, e assim por diante. Cada um tinha seu papel e quase todo mundo se respeitava. Naquela época, a Igreja tinha autoridade, e quem não concordava com o que ela dizia morria na fogueira - mesmo que essa Igreja dissesse que índios e escravos não tinham alma e que o sol girava ao redor da Terra.
Quem acredita numa realidade estruturada a partir de autoridade e poder acha que a fé em Deus resolve tudo; afinal de contas, “agindo Deus, quem impedirá?”. Basta orar com fé e esperar a cura, a prosperidade, a volta do marido, a libertação do filho, enfim, a solução de qualquer problema. Deus manda, o resto obedece. Tudo quanto se tem a fazer é aprender os truques para fazer Deus mandar exatamente o que a gente quer que ele mande. Surgem então as correntes de fé e as ofertas compensadoras da falta de fé, e, principalmente, os gurus que sabem manipular Deus em favor de quem paga bem. Feitiçaria pura.
Copérnico, Galileu, Newton, Einstein e sua teorias científicas fizeram com que o mundo passasse a ser visto como uma máquina, ou como um relógio, sendo Deus o relojoeiro. Neste mundo-máquina, tudo pode ser decodificado, explicado e controlado. As coisas funcionam em relações de causa e efeito previsíveis, como por exemplo as estações do ano, as fases da lua, os movimentos das marés, a órbita dos planetas e os eclipses solares. No dia-a-dia, estas relações também são previsíveis: a partir de informações sobre massa, força, aceleração e direção, sabemos calcular em quanto tempo o carro vai se chocar contra o poste, ou qual bolinha vai acertar a amarela e qual delas vai cair na caçapa.
No mundo-máquina é possível também consertar quase tudo. Quando seu microondas pára de funcionar, basta chamar um técnico e ele vai dizer qual peça deverá ser substituída. O problema é que quem acredita que o mundo funciona assim acaba extrapolando isso para todas as suas relações: o casamento quebrou? Seu filho está dando trabalho? A vida não está funcionando? Então, basta chamar o especialista. Quase tudo tem conserto e pode voltar a funcionar como antes. Mais do que isso, se é verdade que as relações de causa e efeito obedecem precisão matemática, basta apertar o botão certo que as coisas acontecem. Quer fazer discípulos? Quer fazer a igreja crescer? Quer evitar problemas na família? Quer garantir uma boa carreira profissional? Então, basta fazer o curso certo, encontrar o método indicado, seguir as regras apropriadas. Logo, “A” sempre conduz a “B”. Caso você faça “A” e o resultado não seja “B”, então você pensa que fez “A”, mas não fez. O mundo-máquina é assim: tudo sempre funciona direitinho – você é que nem sempre funciona.
Desta compreensão é que surgem o fenomenal ministério para fazer a igreja funcionar com propósitos; a estratégia de sete passos para fazer o ministério ser relevante; as quatro leis espirituais para ganhar a vida eterna; as técnicas de ministração para libertação espiritual e cura interior; os grupos de 12 para fazer o rebanho se multiplicar. É apostila para tudo quanto é coisa, curso para tudo quanto é treco e guru especialista para tudo quanto é tranqueira. Quase todos bem intencionados, mas geralmente funcionando como se o mundo fosse mesmo uma máquina.
Mais recentemente apareceram no cenário algumas teorias elaboradas a partir de outras percepções das ciências da física e da biologia. Na mecânica quântica, os movimentos não são tão previsíveis quanto na mecânica newtoniana. Então, o mundo já não é uma hierarquia nem uma máquina, mas um organismo vivo. As palavras mais adequadas para descrever a realidade são “teia”, “rede”, “arena”, e até mesmo “dança”. A realidade é complexa e os fenômenos naturais e sociais não são previsíveis nem manipuláveis. As pessoas são singulares. Basta verificar que dez pessoas que ganham na loteria reagem de dez maneiras diferentes. Os relacionamentos também são singulares. Dez casais que ganham um filho reagem de dez maneiras diferentes. Da mesma forma, dez igrejas que iniciam um projeto reagem de dez maneiras diferentes. Seres vivos não são padronizáveis. Eles não obedecem relações exatas de causa e efeito. Seres vivos não são coisas. E a vida não é exata.
Quem acredita no mundo como um ser vivo onde cada ser e cada relação é singular, não consegue se submeter a esquemas, não tem a pretensão de gerenciar pessoas, não confia em métodos e nem se impressiona com números, estatísticas e probabilidades. Prefere outros caminhos. Escolhe o caminho da intimidade com o outro; encanta-se com o mistério do sagrado; maravilha-se com a diversidade; presta atenção no jovem em conflito; ouve os dramas do homem que não pára em emprego; fica em silêncio diante da dor e se ajoelha para orar antes de dar um passo sequer em qualquer direção. Esses não se dão muito bem com o Deus-general, ou o Deus-relojoeiro. Curtem mais o Deus-bailarino.
Ed René Kivitz é escritor, conferencista e pastor da Igreja Batista da Água Branca, em São Paulo

Sunday, October 01, 2006

Um grande pecador

Luiz Henrique Mello
Lá pelos idos de 1960, estava fazendo o curso primário no Meninópolis, uma escola católica. Éramos todos católicos nessa época.

Certo dia, o Pe. Carlos entrou na minha classe e perguntou quem ainda não havia feito a primeira comunhão. Fui um dos alunos a levantar a mão. Então, ele disse para a minha professora D. Clotilde que iria levar aqueles meninos para uma reunião. Como ele era o diretor da escola, não houve contestação.

Fora da classe estavam os meninos das outras classes e o grupo ficou grande. Fomos encaminhados para o cinema. Os padres, além da escola, mantinham o cinema ao lado, que também servia de auditório para nós. O grupo grande foi dividido em vários grupos menores e o Toninho Malavazzi, filho do zelador da escola, foi designado para ensinar o catecismo ao meu grupo. Durante semanas, tivemos uma hora de aula, diariamente. Em sua linguagem tosca e pouco erudita, o Toninho expôs o evangelho de Jesus para nós. Fiquei encantado com as histórias, os milagres e me emocionei com o relato da via sacra. Fomos instruídos sobre os rituais que seguiriam nosso aprendizado, ou seja, a confissão, o ato de contrição e depois a comunhão.

Chegou o dia da confissão e fomos conduzidos à Igreja, em frente à escola. Sentei no banco, junto a meus colegas e fiquei aguardando minha vez de confessar. Quando chegou a hora, dirigi-me ao confessionário e fiz meu relato. Não tinha muitos pecados para confessar. Era bom menino. Na ordem católica de pecados, só tinha alguns pecados veniais. Uma desobediência aqui, uma mentirinha acolá e era isso. Terminada a confissão rezei o Ato de Contrição (obrigatório) e dirigi-me ao altar para pagar a penitência.

Voltei e sentei no banco junto com os colegas que já haviam confessado e ao lado do Sérgio Faca. Era um menino todo empertigado, único a ir à escola de gravata e o cabelo penteado com Gumex (o geo da época). Logo que sentei, ele começou a contar os pecados confessados e dentre eles, seu maior pecado: ter assassinado um gato. Em seguida, perguntou quais tinham sido os meus. Para não ficar por baixo, fui logo dizendo: “ih, você acaba de me lembrar do carneiro que eu matei e esqueci de contar p’ro padre”. Carneiro era maior que gato, o que me colocava em vantagem. Esperto, o Sérgio disse: “Então é melhor você voltar lá e confessar”. Não dava para recuar, pensei em enganá-lo. Mas, não deu. Ele me seguiu até o confessionário e ficou bem perto. Então, só me restou ficar firme e confessar o pecado que eu não cometera e que me rendeu uma penitência muito maior. Fui o último a terminar. Mas, ganhei o jogo e me tornei o maior “pecador” da turma. Claro que o Sérgio se encarregou da propaganda e fez todo mundo saber da minha traquinagem que na verdade nunca cometi.

Quanto ao título de maior pecador, acho que foi merecido, não pelo assassinato de um carneiro que nunca cometi, mas, pela grande mentira.

Wednesday, September 20, 2006

Que mundo esse hein!

Acho um saco essa situação, estou falando do problema gerado pelo discurso do Papa, estamos chegando a uma situação em que todas as idéias podem ficar encurraladas principalmente por causa da sensibilidade de alguns muçulmanos fundamentalistas, à medida que eles tentam julgar o mundo, vamos de crise em crise até que... sei lá, às vezes é melhor nem pensar.
Mas o saco mesmo é pensar que isso é consequência das mesmas coisas que eles sofreram, a reação fundamentalista islâmica é violenta, mas o que fizeram com eles com as cruzadas e outras batalhas não foi heroísmo, foi violência mesmo, coisa que religiosos fizeram em nome da igreja e o evangelho acabou pagando esse pato. É meio um saco ver esse julgamento quadrado do mundo, quando os muçulmanos querem calar o mundo inteiro com a régua de sua religião, também mancha o evangelho quando alguns religiosos vão fazer piquete contra aborto, casamento homossexual (não que eu seja a favor destes temas) mas quando eles vão atacar outros com idéias contrárias à religião em nome da fé, e mais uma vez o evangelho paga esse pato. É um saco ver países governados com uma lógica religiosa como os muçulmanos, mas também ver que um batista fundamentalista está tomando as decisões da nação mais poderosa do mundo em torno de uma visão bíblica escatológica que não é de todos, é só de uma parcela da igreja, o cara ora todo dia e toma decisões lamentáveis, como é um presidente crente, o evangelho acaba pagando esse pato! Por isso que eu não me entusiasmo com a idéia de um presidente crente, de um parlamento crente, que Deus nos livre disso!
Às vezes acho que este povo faz isso por que estão na pobreza que o mundo "cristão" civilizado acabou lançando, aí você já sabe, basta algum discurso messiânico e alguma promessa que eles tomam as ruas mesmo, o eleitorado do Lula que o diga.
E logo o evangelho de Cristo, e logo Jesus que mostrou um caminho que mudou o mundo com os primeiros que morreram por ele, acabou tomando outro caminho à medida que a fé se tornou oportunidade política-econômica, mas que vão realmente mudar o mundo se sua igreja começar a amar como ele amou... de novo.

Tuesday, September 05, 2006

Homossexualidade - parte1


Homossexualismo tem se tornado um tema muito polêmico dentro do Cristianismo últimamente, tem levantado conferências internacionais para discutir o caso, tem promovido a discussão não somente governamental , mas comunitária, familiar e eclesiástica.Uma situação que despertou-me a seguinte pergunta : Nós cristãos temos lidado com o problema da homossexualidade de forma correta?
Antes de entramos nesta discussão Cristianismo X Homossexualismo, gostaria de dar algumas definições e explicações:
-Como Igreja, precisamos análisar está situação delicada aos olhos de Cristo.
-Não discutir o “achar”, mas buscar soluções para lidar com o problema, tentar a melhor forma de resolver a situação e buscar a promoção da mutualidade.
-Saber diferenciar orientação sexual de comportamento sexual.
-Não fugir do problema, mas buscar o crescimento do Reino.
Partindo do início da Orientação X Comportamento, podemos perceber que a orientação ou melhor dizendo o “desejo” e quando uma pessoa se sente atraída por outra do mesmo sexo, já o “comportamento” é quando alguém comete o ato sexual com outra do mesmo sexo.O desejo( orientação) se refere a pessoa que fantasia em fazer o ato , comportamento se refere ao ato já praticado.
Muitas denominações se posicionam na condenação da orientação sexual, e ao mesmo tempo se recusam em condenar certos estilos de vida homossexuais além do celibato.Pessoalmente conheço muitos cristãos com orientação homossexual que lutam contra esses desejos através da ajuda do Espírito Santo, já ouvi sobre suas dificuldades e barreiras ! Claro que não posso ajudar , mais admiro esses santos que lutam contra a carne! Que procuram o melhor para suas vidas.Mas algumas perguntas contínuam sem respostas apesar de serem debatidas já a muito tempo! Podemos obter algum conhecimento de acordo com a filosofia e o ponto de vista aplicado , mas não possuímos uma verdade absoluta mas sim um grande paradoxo! Por exemplo:
-Homossexualidade é Inata ou Desenvolvida ?Dean Hamer promove a existência inata, a criação do gen Xq28Freud responde com a teoria reparativa, ou seja o desenvolvimento da orientação.É comprovado que escolhemos nossos comportamentos mas não nossas orientações!
Logo:-Uma orientação pode ser mudada?
-Deus em sua vontade permissiva , permitiu o homossexualismo?
-O que disse Jesus sobre o homossexualismo?
-O que podemos extraír das Escrituras além do código de normas do Velho Testamento e da situação cultural do Novo Testamento?
-Como a Igreja deve reagir?
Continua...

Friday, September 01, 2006

Onde Ele é encontrado



Onde Ele é encontrado
Alexandre Seloti, 31/08/2006 Alexandre Seloti
Eu me sentei na cadeira. As luzes estavam escuras. As chamas das velas tremiam nos olhos da comunidade de adoradores ao redor de mim. Eu estava frustrado. Lá estava eu ao final de minha semana. Eu sentia como se tivesse dado tudo de mim. Não havia restado nada. Eu me sentei na vulnerável escuridão com emoções cruas, reais que caiam sobre mim: fraqueza, solidão, auto-piedade…
"Deus, por que eu não consigo focar? Onde eu estive? Por que eu não posso fazer as coisas que eu sei que eu preciso fazer?" Você alguma vez já se permitiu uma viagem de culpa por pensar muito em você? Tudo aquilo que a culpa auto-infligida faz é continuar o ciclo vicioso de especulação interna. Às vezes eu tenho que rir do timing perfeito de Deus. O orador se levantou e começou a pintar um quadro do paradigma do Reino: pessoas.O coração de Deus sempre foi por pessoas. A história é preenchida em todos os momentos por essa Sua perseguição incansável. Pessoas desesperadas estão esperando por nós para sermos perseguidores do mesmo propósito. Jesus pretendeu para a sua igreja que ela fosse centrada nas prioridades dele: ministrar ao pobre, curar o quebrantado, proclamar liberdade aos cativos e oprimidos e recuperar a visão ao cego (Lucas 4:18). Se nós não somos pelas pessoas, por entregar tudo para buscar o Único, então a igreja se torna uma instituição sem sentido e adora um ritual vazio.
"Aborreço com veemência as vossas celebrações - a vossa hipocrisia, honrando-me com festas religiosas.Não aceitarei os vossos holocaustos e sacrifícios de gratidão. Nem sequer olharei para os vossos sacrifícios de paz.Calem antes os vossos hinos de louvor - não passam de mero barulho aos meus ouvidos. Não escutarei a vossa música, por muito bonita que possa ser.O que eu quero ver é antes a justiça correndo como o poderoso caudal de um rio - como uma torrente abundante de boas obras." - Amós 5:21-24 (O Livro) Eu vejo ao meu redor a ignorância e a inconsciência geral de minha geração. Eu sei que esta definição é clichê, mas é muito verdadeira. Naquela noite, eu escolhi deixar para trás meu pensamento. Para ser desafiado. Para avaliar. Eu sou pelas pessoas? E por entregar até não sobrar nada para dar? Deus levou minhas lágrimas de solidão e frustração e Ele as devolveu a mim como uma compreensão nova dos outros e uma mudança em minha visão do mundo.Quão irônica esta noite sobre todas as outras noites, quando minha cabeça estava caída e meu coração estava pesado, em que Ele responderia a meus choros com canções sobre viver a vida genuína. Em resposta a orações sem foco e egoístas, Ele levou minha fraqueza e disse,
"Continue dando. Quando você pensa que não resta nada, dê ainda mais. Eu sou aquele que vai te cercar. Somente Eu posso ser o seu Conforto, seu Provedor, sua Vida Genuína."Oh, que eu aprenderia a ser uma pessoa real que canta as reais canções que queimam dentro de mim. Enquanto eu dirigia de volta da igreja para o campus, os céus de Tulsa estavam completamente cobertos por nuvens de tempestade. Um raio após o outro riscavam os céus, e um trovão fundo balançou as profundezas do meu ser.Eu fui humilhado por este Deus indomável. Meus planos de cortador de biscoito. A vulnerabilidade de confiar Nele. Ao mesmo tempo, eu encontrei liberdade. Este Deus genuíno me ajudará a viver da Sua visão do mundo. Por meus próprios momentos de fragilidade e temor, Ele me faz um reconhecedor da restauração e a sua insondável fidelidade mantém o Universo (assim como a minha vida) unido.E eu aprendi que é lá onde Ele é encontrado…é fora do meu eu.

Sunday, August 27, 2006

A Pobreza da Prosperidade - Lou




Eu tinha um amigo, lá pelos idos da década de 70, considerado o maior vendedor de carros de Santo Amaro. Ele não era uma pessoa comunicativa. Sua característica mais visível era o alcoolismo. Todos os dias lá pelas 14 ou 15 horas ele sentava na poltrona de seu escritório e enquanto os presentes falavam, ele dormia, chegando a roncar. Entretanto, era inacreditável como os negócios da loja dele prosperavam, apesar do pai, mesquinho, fazendo de tudo para impedir o sucesso das compras e vendas. Não havia ali nenhum princípio de administração ou economia. Mas, o dinheiro entrava. Com ele ou sem ele, bêbado ou sóbrio, com seu pai ranzinza ou o que fosse, tudo contribuía para o fluxo positivo em seu caixa.

Nos anos 90 tive o privilégio de conviver com um dos grandes adeptos da doutrina da prosperidade um Pastor português e presidente de uma grande Igreja de abrangência transcontinental. Passei um mês com ele em Portugal, trabalhando diariamente no processamento de dados, proveniente das suas Igrejas. Sua característica mais importante era o trabalho. Com ele não havia horário e tempo adequado para trabalhar. Trabalhávamos de dia, de noite, de madrugada e só parávamos quando a sua esposa lembrava-lhe que precisávamos descansar. Nunca descobri em que horas ele dormia. Aprendi com ele todos os versículos e passagens bíblicas interpretadas como suporte às doutrinas da prosperidade. Não é preciso ser expert em Teologia para perceber onde ele e todos os outros teólogos da prosperidade erram. É na hermenêutica, óbvio, detalhe que eles desconhecem.

Mas, o que mais me chama atenção é perceber que esses dois senhores, embora nunca tenham se conhecido, eram prósperos financeiramente e estavam muito longe de uma prosperidade real. Os dois tinham em comum certa tristeza interior, uma insatisfação jamais suprida e viviam tentando supri-la com mais dinheiro. Eles nunca entenderam a proposta de riqueza moral de Jesus Cristo. Buscaram a prosperidade empobrecedora.

A pobreza da “Prosperidade” está na individualização do ser humano. Para prosperar financeiramente é preciso ser incapaz de perceber as outras pessoas ao nosso lado, pois, é delas que virá nosso dinheiro. É preciso vê-las como clientes ou contribuintes, jamais como criaturas de Deus. É a AMWAY cristã.

Depois de todos esses anos e experiências boas e ruins dá para afirmar: “Só é, verdadeiramente, próspero quem tem as pessoas, ao seu lado, como amigos e irmãos. Quem tem a capacidade de sofrer suas dores e tomar sobre si, seus erros e enfermidades”

Tuesday, August 22, 2006

A Igreja de Papel (I)

“O futuro não pode ser uma continuação do passado, e há sinais, tanto externamente quanto internamente, de que chegamos a um ponto de crise histórica.”

É assim que o historiador inglês Eric Hobsbawm se expressa na última página de seu livro Era dos Extremos, concluindo seu pensamento daquilo que ele chama de “breve século XX”. Mesmo abrangendo fatos que correspondem cronologicamente o período de 1914 a 1991, o livro torna-se legado pela capacidade de permanecer atual e pertinente nos tempos de agora, neste mundo hoje, nesta realidade presente.

O ponto de “crise histórica” proferido por Hobsbawm envolve, evidentemente, as estruturas das sociedades humanas (as de poder, as econômicas, as etnoculturais, etc.), das suas relações, de convergência ou de confronto, das suas proximidades ou distanciamentos, das suas idiossincrasias, enfim. Sim, o capitalismo venceu, o individualismo também. Sim, tudo o que poderia indicar uma alternativa mais “justa” e mais “humana” malogrou, trazendo um ambiente de frustração tão forte e tão denso, que o homem parece mesmo ter desistido de abstrair e sonhar. Certamente, isso constitui uma crise.

Mas há uma outra crise entre nós. Uma crise de resposta para a humanidade, uma crise de referencial e, principalmente, de nova perspectiva. Há um outro ponto de crise histórica, que envolve a Igreja diretamente, bem como a sua capacidade de intervenção e alcance. Lembrando, é claro, que nem sempre intervenção e alcance foram pensados conjuntamente, uma vez que a Igreja tenha pensado e avançado muito mais em direção do segundo e se importado muito pouco com o primeiro.

Mas essa é uma observação que passaria despercebida se não estivesse agora espremida num ponto de crise histórica que se impõe. Tudo que um dia pôde constituir o “messianismo secular” no qual as sociedades humanas estavam esperançosas, sucumbiu num abismo de dura realidade do “jogo da repetição”. Mesmo em Nações em que o líder consegue ser um arremedo do libertador, ele não o será fora do ciclo de alcance do seu carisma, mesmo dentro da própria Nação.

Este é um momento importante em que a Igreja deveria ter algo a dizer, algo a apresentar.

(...) descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra.

Efésios 1:10

É bastante razoável inferir que poderíamos ter algo a dizer e propor se mantivéssemos nossa unidade, nossa riqueza, se tivéssemos crescido não somente por causa do alcance (sempre ele, o alvo), mas também pelo que intervimos, pelo que transformamos, pelo que mantivemos intactos como referencial comum, pela maturidade que alcançamos. Mas na medida em que a Igreja se acostumou a alcançar sem precisar compreender, fez da agora chamada geração emergente uma espécie de “filho que não viu crescer”, não acompanhou o seu desenvolvimento, então não sabe como tirá-lo de sua crise histórica, não sabe como gritar para ele, de maneira que ele possa compreender e confiar que é mesmo uma saída.

A Igreja compôs as estruturas, e nunca demonstrou demasiado desinteresse em compor, o que torna a questão um problema ainda mais grave. Se há alguma razão na afirmação do jornalista uruguaio Eduardo Galeano de que “a história é um profeta com os olhos voltados para trás”, essa razão certamente se aplicaria ao fato de que em algum momento da história, ou mais precisamente na trajetória da humanidade, a Igreja perdeu a oportunidade de perceber que o mundo e as sociedades entrariam em colapso. Mais do que isso. Que este colapso seria peremptório, estaria na ponta, no limite, na fronteira com o improvável e totalmente imprevisível, do “racionamento” das possibilidades.

A Intensidade das transformações sociais, culturais, políticas e econômicas no mundo do século XX formaram, juntamente com as revoluções tecnológicas nele contida, sinais fulgurantes de que este mundo pediria socorro, mesmo sem saber que estava pedindo, e de que a geração que nele estivesse não teria condições de permanecer nele sem optar pela ruptura com o seu tempo, ou ao menos com as normas do seu tempo. O “profeta com os olhos voltados para trás” clamava no alto do monte que as estruturas (todas elas) iriam ceder. Não chegou a ser sequer uma questão de conhecimento, até então era somente uma questão de percepção.

Em muitos aspectos, muitas das vezes em que interpretou o apelo de Paulo, para que não se conformasse com este mundo, mas o transformasse pela renovação do entendimento, a Igreja transferiu a interpretação para o “mundo”. No entanto, se somente quem é espiritual é capaz de discernir todas as coisas, e também é este quem tem a mente de Cristo, não é possível que o entendimento renovado puro e simples, por si só, seja capaz de alcançar essencialmente o que algo é ou o que representa.

Portanto, o mundo, no mais alto nível da sua intelectualidade, só conseguiria mesmo discernir o que se manifesta nas suas expressões, e dificilmente, o que está contido na sua essência. Mesmo um sistema filosófico elaborado e estruturalmente complexo como o existencialismo é se não uma resposta elaborada e demasiadamente complexa estruturalmente para as expressões da humanidade. Por tanto, não é que negue a essência, é que não consegue (e talvez nem poderia mesmo) percebê-la. E, em muitos aspectos, a pós-modernidade é a transformação deste mundo, mais rápida, dinâmica e intensa (quantitativamente) nas suas expressões, e de maneira nenhuma no mesmo ritmo na sua essência. Discernir bem todas as coisas é, entre outras coisas, ser capaz de entender que nem sempre as expressões manifestam a sua essência. Não obstante, é também compreender que a intensidade das transições das expressões acabam, com efeito, alterando gradativamente a essência.

No momento em que não compreendeu nem expressão nem essência, a Igreja viu seu mundo ameaçado por um mundo que não permitia mais uma separação, ou melhor dizendo, um distanciamento. Só nesse momento é que a oração de Jesus para que o Senhor não nos tirasse do mundo mas (apenas) nos livrasse do mal é melhor compreendida. Difícil é avaliar o quão tardia é melhor compreendida. É evidente que esta palavra não foi cunhada para século XX, mas se ela passasse a permear a compreensão da Igreja, quiçá a resposta teria vindo.

Ronilson Pacheco